Exposição Irradiações (Casa da Arquitectura, Portugal)

“Irradiações” abre dia 23 de fevereiro na Casa da Arquitectura, em Matosinhos (Porto), destacando cinco projetos dos anos 1960, como o Centro de Convivência Cultural de Campinas

Com curadoria de Francesco Perrotta-Bosch, a mostra é a primeira realização do Arquivo Fabio Penteado, criado para difundir e preservar a obra do arquiteto, que completaria 90 anos em 2019

© Thomaz Farkas Estate / Instituto Moreira Salles

 

Autor de projetos de grande porte como o clube Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo, o Centro de Convivência Cultural, em Campinas, e o Parque Cecap, em Guarulhos, o arquiteto paulista Fabio Penteado (1929-2011), que completaria 90 anos no próximo mês de junho, terá sua obra revisitada em uma exposição em Portugal.

Com curadoria de Francesco Perrotta-Bosch, Irradiações abre dia 23 de fevereiro na Casa da Arquitectura, localizada em Matosinhos, cidade na região do Porto. Serão apresentados cinco projetos dos anos 1960, que evidenciam a atenção do arquiteto para as dimensões coletiva e pública dos espaços.

© Ivo Tavares Studio

A mostra é a primeira ação realizada pelo Arquivo Fabio Penteado, criado para difundir e preservar a obra do arquiteto, com coordenação de sua filha Adriana Penteado. Outras ações estão previstas para 2020, como o lançamento do site com acervo digitalizado e a publicação de sua primeira biografia.

Irradiações dá sequência à parceria iniciada em 2017 entre o Arquivo Fabio Penteado e a Casa da Arquitectura, que recebeu a doação de cerca de 400 itens (desenhos, fotografias e documentos) referentes ao Centro de Convivência Cultural para integrar sua Coleção Arquitetura Brasileira, um acervo com cerca de 50 mil itens que será mantido pela instituição portuguesa.

Irradiações

Projetos do Monumento da Playa Girón e Monumento Comemorativo aos Trinta Anos
© Arquivo Fabio Penteado

A exposição na Galeria da Casa da Arquitectura reúne desenhos originais de cinco projetos de matrizes radiais de um período profícuo da carreira de Fabio Penteado, entre os anos 1962 e 1968. “Irradiar é o verbo gerador dos cinco projetos. Uma mesma gênese que se formaliza de diferentes modos e permite imaginar diversas ocupações pelo povo”, afirma Francesco Perrotta-Bosch. Os quatro primeiros projetos desta seleção não foram concretizados. Já o último foi realizado a convite da Prefeitura de Campinas.

© Ivo Tavares Studio

O Monumento da Playa Girón (Cuba, 1962), inscrito em um concurso internacional,  celebra a vitória cubana sobre os Estados Unidos na tentativa de invasão à Baía dos Porcos, em 1961. O memorial apresenta um corpo singular que brota do solo na paisagem litorânea, sendo envolvido por uma praça para 30 mil pessoas. O projeto ficou em segundo lugar na disputa, mas foi o preferido de Fidel Castro, o que abriu espaço para negociar sua execução. Com passagens para Cuba marcadas para 7 de abril de 1964, a equipe de Penteado teve a viagem suspensa após o Golpe Militar, ocorrido uma semana antes, e a obra nunca saiu do papel.

O Monumento Comemorativo aos Trinta Anos (Goiânia, 1965) foi criado para o aniversário de Goiânia. O arquiteto propôs em um concurso um monumento que não celebrasse a curta história da cidade, mas que abrisse espaço para a construção do seu futuro. De um ponto central partiriam oito faixas em concreto, cinco delas ocupadas por arquibancadas abertas à população. Os cinco blocos seriam ligados pelo subsolo, onde se localizaria um museu, preservando também a memória goianiense.

O projeto do Mercado do Portão (Curitiba, 1965) aboliu os corredores tão comuns de mercados convencionais. A circulação foi concentrada em uma praça central, a céu aberto, propondo um convívio de diferentes públicos. As lojas irradiam a partir deste ponto, em uma estrutura de concreto e cobertura de vigas-calha de diferentes alturas e comprimentos.

O Teatro de Ópera (Campinas, 1966) foi inscrito em um concurso nacional. O projeto grandioso previa a construção de três teatros nas margens de uma lagoa. Dois volumes radiais surgem com salas flexíveis de espetáculos para a ópera e a comédia. Entre eles, um anfiteatro ao ar livre com palco em uma ilha artificial. Apesar de autônomos, os teatros compartilham áreas de apoio, ensaio e camarins em um bloco subterrâneo. A proposta ficou em segundo lugar, mas participando da I Quadrienal de Teatro de Praga, em 1967, recebeu a Grande Medalha de Ouro do evento. O prêmio levou a Prefeitura de Campinas a convidar Fabio Penteado para criar outro teatro para a cidade: o Centro de Convivência Cultural.

A irradiação proposta nos quatro projetos anteriores se materializaram no Centro de Convivência Cultural (Campinas, 1967-68). O teatro para oito mil pessoas é também uma praça pública, já que seu palco pode ser atravessado por qualquer pessoa, a qualquer hora do dia. A construção em concreto com formas irregulares e assimétricas é composta por quatro blocos, com coberturas em forma de arquibancadas. O maior deles abriga uma sala de espetáculo, as outras trazem bar, área administrativa e sala de exposições. Todas estão ligadas por uma galeria em meio-subsolo. Completa o conjunto uma torre de 25 metros de altura para iluminação e apoio a espetáculos a céu aberto.

Tombado pelo patrimônio histórico do Estado, o complexo cultural está fechado ao público desde 2011 e atualmente se encontra em processo de licitação para sua reforma, orçada em R$ 40 milhões, segundo a prefeitura de Campinas.   

“A trajetória de Fabio Penteado é marcada por esforços de materializar partidos projetuais que, quando não ocorrem na primeira tentativa, reconfiguram-se e reconfiguram-se até se consubstanciarem no mundo. Uma ideia que foi germinando até o momento que irradiou”, diz o curador.

Além de 14 desenhos originais dos cinco projetos, informações variadas e textos curatoriais, uma grande maquete do Centro Cultural de Convivência será apresentada na mostra. O design gráfico é de Celso Longo e Daniel Trench, a expografia, de Juliana Prado Godoy e a iluminação de Fernanda Carvalho.  

Desenho original do Teatro de Ópera
© Arquivo Fabio Penteado